Checamos – Rondônia tem subnotificação de casos de Covid-19?

Publicado em: 21/05/2020 15:01:27

Números oficiais não refletem o estágio da doença no Estado, e Capital tem aumento severo na quantidade de óbitos


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Por DIOGO MARQUES E SANDRO COLFERAI (orientador)

 

 

Há muito tempo o mundo não experimentava tamanha sensação de insegurança e medo diante da disseminação generalizada de uma doença. A última vez que isso ocorreu de forma tão ampla e agressiva foi há um século, durante a pandemia de gripe espanhola. Hoje, o motivo do nosso temor é um novo coronavírus, transmissor da Sars-CoV-2, ou simplesmente Covid-19. Embora o mundo tenha mudado bastante do início do século 20 para cá, algo continua igual nos dois períodos: a necessidade de os governos dos diversos países atingidos administrarem a crise contra um inimigo desconhecido e invisível.

 

Por isso, tomando como base os dados situacionais gerados em tempo real e parâmetros para o estabelecimento de políticas públicas de combate e de controle da doença, o Governo Federal criou repositórios online de informações que permitem ao cidadão o acompanhamento transparente da evolução da Covid-19 no Brasil.

 

Assim, cada Estado tem suas próprias bases de dados. Rondônia, por exemplo, emite boletins diários sobre a evolução dos casos do novo coronavírus, indicando a quantidade de testes realizados, número de infectados, internações e óbitos. Mas estes dados estão realmente espelhando os fatos? Esta questão é fundamental se assumirmos que, de fato, são os dados gerados pelo governo que são a base para as ações e políticas públicas.

 

Portanto, ARUANA resolveu ir um pouco mais fundo e verificar as informações disponibilizadas nas diversas ferramentas livres para consulta na internet, com a finalidade de comparar os dados, tornando-os claros para ajudar a entender o cenário que os números, em tese, apontam: o das subnotificações em Rondônia.

 

Desde o primeiro caso de morte pelo coronavírus no mundo, ocorrido em dezembro de 2019, na China, começamos a lidar com informações pouco familiares, como números, estatísticas, gráficos, escalas logarítmicas, índices de contágio, e por aí vai... Os países afetados pelo vírus transformam contágios e mortes em cálculos que se tornam a matéria prima para o desenvolvimento de estudos que projetam o futuro e fundamentam processos decisórios. No Brasil, o Ministério da Saúde consolida um balanço diário a partir dos dados gerados por Estados e municípios com números que, infelizmente, não param de crescer.

 

Nesse sentido, o governo de Rondônia produz e divulga em diversas plataformas, por meio da Secretaria de Estado da Saúde de Rondônia (Sesau), o total de vítimas acometidas pelo vírus, a quantidade de pessoas recuperadas, o número de internados confirmados e suspeitos em hospitais públicos e privados, os casos aguardando os resultados laboratoriais, o número de testes realizados (sendo discriminados os que são voltados para os cidadãos em geral e os que monitoram os profissionais de saúde) e os óbitos. Além disso, a Sesau elabora Boletins Diários e outros documentos úteis abertos à população. Os dados são gerados a partir da confirmação dos casos ou de suspeitas mas, de toda forma, se referem a testes realizados (RT-PCR - reverse-transcriptase polymerase chain reaction -, ou aos testes rápidos). No entanto, Rondônia, assim como em quase todo o país, adota como protocolo a testagem seletiva: os exames são realizados apenas em suspeitos sintomáticos que dão entrada em hospitais.

 

São os números oficiais gerados pelo Governo rondoniense a base das predições semanais realizadas por pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia (Unir), que também consideram a taxa de eficácia das medidas propostas pelo governo e a adesão pela população que, por sua vez, são os produtos utilizados pelo Executivo Estadual para acompanhar a evolução e definir as estratégias de ações para o enfrentamento da doença visando as datas posteriores, formando, assim, um ciclo interdependente de informações geradas entre o Estado e a Universidade. À frente do projeto estão a professora doutora Ana Lúcia Escobar e o professor doutor Tomás Daniel Menendez Rodriguez, dos Departamentos de Medicina e de Matemática, respectivamente. As projeções para a expansão da Covid-19 em Rondônia gerados pelos pesquisadores da Unir têm se provado certeiros e, segundo o próprio governador, são mesmo as referências que o Estado utiliza para definir as ações semanalmente.

 

comparativo unir sesau

 

 

No entanto, como esses números são gerados a partir dos testes realizados (PCR ou rápidos), as próprias autoridades sanitárias admitem que há um grande número de pessoas contaminadas que não manifestam sintomas e, por isso, não são testadas. Ainda há os casos das pessoas sintomáticas que, por não necessitarem de internação, não realizam os exames. Então, apesar de todos os elementos factuais usados, aliados aos fundamentos científicos, quantos são os infectados em Rondônia não testados, sintomáticos ou não? Não há uma resposta para esta pergunta. O que há são projeções e um conjunto de dados que ajudam a traçar este cenário mais geral.

 

No último dia 8, em apresentação para a imprensa, as autoridades sanitárias estaduais utilizaram alguns números disponibilizados pela professora Ana Escobar e pelo professor Tomás Rodriguez - os mesmos pesquisadores que vem realizando projeções a partir dos dados oficiais, aqueles oriundos dos testes efetivamente realizados. Nesta outra projeção, considerando um cenário mais amplo, como índice de transmissão da doença e a adesão ao isolamento social, até o princípio do mês de agosto, os pesquisadores previram outro quadro, muito pior, para Rondônia.

 

Na predição apresentada por eles a quantidade de casos confirmados acumulados em Rondônia pode chegar a 375 mil até o início de agosto, ou seja, 20% do total da população do Estado. De acordo com as possibilidades assumidas, e considerando a taxa de letalidade no país, morreriam, ainda de acordo com as projeções, cerca de 24 mil pessoas, das quais pelo menos 17 mil com 60 anos ou mais.

 

 

Esse é o único material científico disponibilizado que mostra um cenário do contágio com um intervalo tão longo em âmbito estadual, tendo sido realizado através de um modelo matemático de crescimento de epidemias. A pesquisa tem fundamento nos dados disponibilizados até 16 de abril e possui como pressupostos a conjuntura da época: medidas sanitárias adotadas pelos governos estadual e municipais, adesão popular dos planos governamentais e, principalmente, informações reais prestadas pelos órgãos oficiais. E é aqui que se encontra o problema: se levarmos em conta as estatísticas oficiais, geradas pela defasagem das pessoas que não são submetidas às testagens pelos mais diversos motivos, ainda que sejam potenciais agentes de contaminação, as predições abarcam números ainda mais dramáticos. Entenda como isso funciona.

 

Testes em massa são considerados a base para o enfrentamento à Covid-19, pois permitem ter um número de infectados mais próximo do real e maior clareza na sua distribuição, além da antecipação de medidas contra a doença, como explicam especialistas ouvidos pelo Portal R7 em 15 de abril. O site da BBC Brasil , em 24 de abril, também abordou em uma matéria a importância de se realizar a maior quantidade possível de testes: segundo a plataforma Our World In Data, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, mais testes significam “dados mais confiáveis sobre casos confirmados”. No Brasil, o índice de testagem pelo PCR, o tipo mais confiável de testagem, considerando os números disponibilizados pelo Ministério da Saúde em 12 de maio, é de 2,3 por 1 mil habitantes, um número muito baixo se comparado a países como Alemanha (25,11 testes por mil habitantes), Itália (23,64) e Estados Unidos (12,08). Em Rondônia, os números divulgados pela Secretaria de Saúde (Sesau) são melhores, mas ainda longe do desejável: 3,7 testes a cada 1 mil habitantes. É com as informações oficiais geradas neste cenário de baixo número de testagens que o governo rondoniense se prepara para o futuro da saúde pública.

 

Uma das indicações de que não estamos tendo acesso ao cenário completo sobre o espalhamento e impactos da Covid-19 em Rondônia é o número de óbitos. ARUANA realizou um levantamento sobre o número de mortes registradas em Rondônia desde o início de pandemia, e o que pode ser visto é um panorama que corrobora os temores sobre a subnotificação. Os dados são oficiais, abertos e públicos, fornecidos pelo Portal da Transparência do Registro Civil :

 

 

Ainda no que diz respeito ao número de óbitos em Rondônia, e no epicentro da doença no Estado, Porto Velho, observa-se uma clara diferença: enquanto no Estado a quantidade de mortes mantém-se estável nos mesmos períodos entre 2019 e 2020, ainda que tenhamos um novo ator envolvido, o coronavírus, na Capital, as estatísticas mostram um aumento significativo de falecimentos, principalmente aqueles decorrentes de complicações respiratórias. São 56% mais mortes por estas causas entre 20 de março e 1º de maio em 2020 do que em 2019. Como sabemos, estes são problemas de saúde que se relacionam com as complicações da Covid-19. A essa altura, você pode estar se perguntando se Rondônia subnotifica os óbitos ou, talvez, Porto Velho supernotifica. Para responder a esse questionamento, mais uma vez, deveríamos recorrer ao que nos falta neste momento: testagens sistêmicas em massa. De qualquer modo, considerando que 77% dos casos registrados em Rondônia estão em Porto Velho, o aumento do número de óbitos relacionados com problemas respiratórios no município, associado ao baixo número de testagem, é indicativo de que o impacto da Covid-19 pode ser maior do que mostram os dados oficiais.

 

Dessa forma, fica bem claro que, devido à escassez de recursos, o Estado precisa racionar os testes para utilizá-los nos casos previstos pelo protocolo médico e que, por isso, não possui meios para fazer testes em massa. Não se trata de uma condição exclusiva de Rondônia, mas comum a todo o Brasil e à maior parte dos países, pois há muita procura e baixa oferta de exames. Assim, existem pessoas sintomáticas e assintomáticas que não são testadas e que são agentes do disserminação do vírus. Sabemos também que, como já foi dito, as estatísticas não refletem a realidade. Mesmo os estudos realizados por pesquisadores da Unir são projeções e, como qualquer projeção, sofrem influências das ações efetivadas, seja pelo governo estadual e pelas prefeituras, seja pela população. E a relação entre restrição na circulação da população e a multiplicação dos casos é inversamente proporcional: mais isolamento social e prevenção individual – com maior observação da higiene pessoal, por exemplo – é igual a menos número de infectados pelo novo coronavírus. Mas o contrário também é verdadeiro: menos isolamento e cuidados pessoais, mais casos. Por isso as projeções são constantemente atualizadas. Isso, no entanto, não faz perder de vista outros dados, como os índices de óbitos apresentados pelo Portal da Transparência do Registro Civil, que claramente indica para a subnotificação dos casos de Covid-19 em Rondônia, especialmente pelo fato de que Porto Velho tem registrado números crescentes de casos positivos e tem a maior taxa de mortes pelo coronavírus em todo o Estado.

 

A título de conclusão, fica claro que a incapacidade da maior parte dos governos em todo o mundo de testar o máximo de pessoas possível, torna qualquer estudo ou projeção, mesmo as mais abalizadas, em números que não refletem plenamente a realidade. Isso é um problema cada vez maior quanto menor são os esforços e espaço dados a especialistas e cientistas para interagir com os gestores, seja em nível federal, estadual ou municipal. As experiências positivas de gestão de crise na saúde em decorrência do coronavírus ao redor do globo confirmam que o estabelecimento de medidas eficazes contra a expansão do vírus passa, necessariamente, pelas testagens em massa, e o resultado disso impacta os processos decisórios de governança. Isso significa dizer, em outras palavras, que seu vizinho, seu colega de trabalho, seu amigo de balada ou seus familiares mais próximos podem ter sido infectados sem ao menos saber. Até que o protocolo médico preveja a aplicação de testes e a atualização dos números, e os governos tenham condição de ampliar os índices de testagem, todos nós somos potenciais agentes de expansão da doença oficialmente desconhecidos. Por outro lado, ter em mente que o baixo número de testagem, de individualização e de distribuição dos indivíduos portadores do vírus influenciam diretamente nas políticas públicas e no comportamento dos cidadãos é a melhor forma de se conscientizar sobre a importância e o respeito às medidas de isolamento e de distanciamento social impostas pelas autoridades, muito embora estejam limitadas aos números proporcionados pelo problema da ausência de um programa sistemático de testagens em massa.

Fonte: ARUANA